
Crédito – Bruno Carachesti/Divulgação Agência Belém
por Juliane Castro para Perifa na Lista
Quando o Brasil inteiro já guardou as fantasias, desmontou os trios elétricos e voltou à rotina, Belém faz o caminho inverso: é nesse momento que os tambores começam a ecoar com mais intensidade. Na capital paraense, o Carnaval não termina na Quarta-Feira de Cinzas. Ele renasce dias depois, com brilho próprio, identidade amazônica e um orgulho que atravessa gerações.
Um Carnaval que escolheu seu próprio tempo
Diferentemente de capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, onde os desfiles das escolas de samba acontecem no calendário oficial da folia, Belém optou por outro ritmo. Por questões estruturais, organizacionais e financeiras, que variam a cada ano, os desfiles costumam ocorrer após o período tradicional do Carnaval. Mas reduzir essa escolha a uma questão logística seria simplificar demais.
Em Belém, a mudança de data acabou criando uma identidade própria. Quando o país pergunta “o Carnaval já acabou?”, os paraenses respondem com alegorias, batuques e sambas-enredo: aqui, ele continua. Essa diferença também permite que o público aproveite o evento com mais tranquilidade, sem competir diretamente com grandes transmissões nacionais e dando foco à tradição e à cultura local.

Crédito – Bruno Carachesti/Divulgação Agência Belém
Raízes profundas na cultura popular
O Carnaval em Belém tem raízes que atravessam o século XX. Blocos, ranchos e cordões carnavalescos marcaram as primeiras décadas da festa, movimentando bairros tradicionais. Mas foi com as escolas de samba que a folia ganhou corpo e organização própria, uma mistura de festa popular, competição saudável e celebração das tradições amazônicas.
Assim como no Rio de Janeiro e em São Paulo, aqui também existe uma hierarquia entre as agremiações: Grupo Especial, o Grupo 1 e o Grupo 2 refletem diferentes níveis de experiência e tradição. Mas o que diferencia Belém é o olhar sobre a identidade cultural: nos enredos, temas regionais, natureza, religiosidade e histórias de comunidades ganham vida nas alegorias e coreografias.

Crédito – Bruno Carachesti/Divulgação Agência Belém
As escolas que mantêm a chama acesa
Quem conhece de samba sabe que manter uma escola viva em Belém é tarefa de paixão e comunidade. Nomes como Xodó da Nega, Embaixada de Samba do Império Pedreirense, Acadêmicos da Pedreira, Bole Bole, Matinha, Boêmios da Vila Famosa, Quem São Eles e Deixa Falar representam bairros, tradições e histórias que fogem do eixo tradicional do samba carioca, mas trazem um samba cheio de personalidade e autenticidade. Essas escolas transformam meses de trabalho em poucos minutos de desfile, e cada bateria, comissão de frente, mestre-sala, porta-bandeira e ala de fantasia carrega um pedaço do orgulho comunitário. Não é raro, nos barracões, ver costureiras voluntárias, músicos locais e dirigentes se unirem para garantir que o enredo seja contado com dignidade e impacto.

Crédito – Alessandra Serrão/Divulgação Agência Belém
Programação
Neste ano, a programação na Aldeia Cabana, localizada em um bairro conhecido como “Bairro do samba e do amor”, concentra um dos momentos mais esperados do festejo: os desfiles oficiais das escolas de samba do Grupo Especial, que acontecem nos dias 27 e 28 de fevereiro, reunindo sete agremiações em duas noites de puro samba, cores e energia no coração da folia belenense, enquanto as arquibancadas se enchem de público animado para acompanhar cada ala, cada componente e cada batida que ecoa pela avenida da festa.
Mas não acaba por aí, nos dias 6 e 7 de março é a vez dos grupos 1 e 2 entrarem na avenida. É neste momento que outras tradicionais agremiações da cena local também apresentam seus enredos e coreografias que celebram a cultura amazônica na passarela montada na avenida Pedro Miranda, uma programação que estende a tradição do samba de rua e reforça a identidade cultural. A diversidade de eventos garante que o Carnaval de Belém seja mais do que um desfile: é uma celebração que atravessa música, tradição popular, arte e comunidade.
Figuras que vieram somar à festa
O desfile das escolas de samba de Belém em 2026 também ganha brilho extra com a presença de três nomes de peso do Carnaval brasileiro. Entre eles está Mestre Ciça (Moacyr Silva Pinto), um dos mais longevos e respeitados mestres de bateria do Rio de Janeiro, campeão recente pela Unidos do Viradouro e dono de uma trajetória que passa por agremiações como Estácio de Sá e Acadêmicos do Grande Rio; ao lado dele estará o Mestre Fafá, jovem referência da bateria da Grande Rio, conhecido pelo comando firme da “Tricolor de Caxias”; e também o paraense Milton Cunha, carnavalesco e comentarista consagrado da TV Globo, que vem somar à festa trazendo O Camarote Miltons, um espaço criado para projetar o desfile paraense nacionalmente. A presença dos três reforça a conexão entre a passarela da Sapucaí e a Aldeia Amazônica, simbolizando o diálogo entre o Carnaval carioca e a potência cultural da Amazônia.

Milton Cunha na avenida) Crédito – Luan Moraes/@moraes_clicks_
Um Carnaval que também é afirmação!
Desfilar depois do calendário oficial nacional não diminui o brilho, ao contrário, amplia o significado. Belém transforma o “atraso” em extensão da festa, em reafirmação de identidade. Enquanto o Brasil relembra os melhores momentos do Carnaval pela televisão, a capital paraense está vivendo o seu. Não como repetição do modelo carioca, mas como tradição amazônica da maior festa popular do país. No batuque dos surdos e na cadência do samba, Belém responde à pergunta que ecoa todos os anos:
Ainda é Carnaval? Aqui, sim!
E talvez seja ainda mais verdadeiro.

Crédito – Márcio Nagano/Divulgação Agência Belém