Asopọ une arte, música e pertencimento para jovens negros no interior de SP

Criada em 2024 por Emilly Lima e Leandra Rocha, duas jovens negras do Vale do Paraíba, a Asopọ nasceu da necessidade de construir espaços de pertencimento e conexão para a juventude negra no interior de São Paulo. O projeto independente reúne música, moda, arte e experiências culturais voltadas à valorização da cultura negra na região.

A iniciativa surgiu da vontade de criar algo que celebrasse e trouxesse representatividade para o mês da Consciência Negra. Em entrevista ao Perifa na Lista, Emilly, uma das idealizadoras do projeto, contou que a proposta começou a ser pensada diante da possibilidade de novembro passar despercebido mais uma vez. “Nossa conversa se iniciou exatamente porque a data estava se aproximando e nós sabíamos que existia a chance dela passar em branco assim como em outras vezes, então resolvemos mudar essa perspectiva”, afirmou. Desde então, o evento passou a acontecer anualmente no mês de novembro.

O nome Asopọ também carrega elementos de ancestralidade e identidade cultural. “O nosso nome significa ‘conexão’ em yorubá e ele traz tudo o que se conecta dentro do nosso evento e da nossa cultura: música, moda, arte e sentimento de comunidade”, explicou a idealizadora.

Segundo a fundadora, a cena cultural do Vale do Paraíba ainda depende, em grande parte, dos mesmos contratantes e casas de show privadas, o que limita tanto a diversidade quanto a frequência de eventos voltados à juventude negra. Ela afirma que, além da pouca atuação do poder público, os espaços de entretenimento da região costumam investir em programações que não dialogam com outras referências culturais além do universo sertanejo.

A percepção de que os jovens frequentavam sempre os mesmos ambientes, convivendo com experiências repetitivas e investindo em um lazer que não gerava identificação foi, um dos fatores que motivaram a criação da Asopọ. “Muitas das vezes gastando um dinheiro que não vem fácil pra ter uma sensação falsa de lazer”, disse. Para ela, esse cenário também contribui para o desejo de muitos jovens deixarem a região em busca de mais oportunidades culturais e criativas.

Ela destaca ainda que um dos principais retornos recebidos do público é o sentimento de pertencimento criado durante as edições do evento. “O que a gente mais ouve de quem participa das nossas edições é sobre o sentimento de pertencimento, o brilho no olho de saber que existe ‘um lugar’ fora do próprio quarto e das redes sociais”, relatou. Para a idealizadora, a iniciativa aproxima jovens com referências, gostos e vivências semelhantes, fazendo com que deixem de se sentir deslocados em seus próprios territórios.

A edição mais recente da Asopọ teve um significado especial por marcar o primeiro ano do projeto. Com o tema “criatividade como ferramenta ancestral”, o evento buscou reforçar a ideia de que a criatividade negra sempre esteve presente, mesmo sem o devido reconhecimento histórico. “A intenção foi abordar mais uma vez como os nossos talentos sempre estiveram presentes por aqui, e que assim como outras características físicas e habilidades, a criatividade também é um dom que nós herdamos dos nossos ancestrais”, explicou.

Além do impacto cultural e social, a Asopọ também passou a gerar oportunidades profissionais para artistas e criativos envolvidos na organização. Integrantes da equipe já receberam propostas de trabalho a partir de conexões criadas dentro do evento. “O nosso time é 100% colaborativo e feito por quem quer ver a mudança acontecendo”, pontuou. Para a fundadora, fortalecer economicamente profissionais negros da região também faz parte da proposta do coletivo. “Nada é melhor do que fazer o dinheiro girar entre os nossos pra que isso aconteça. Dinheiro é autoestima”, concluiu.