A Virada Cultural se consolida como um dos maiores eventos gratuitos de São Paulo, enquanto desafios como deslocamento, custos e rotina ainda impactam o acesso de parte da população
Por Gabrielly Fiusa e Gabrielle Oliveira
A Virada Cultural, festival realizado na cidade de São Paulo desde 2005, busca celebrar a diversidade cultural por meio de uma programação gratuita, ampliando o acesso da população às manifestações artísticas. O evento também abre espaço para artistas e produtores em ascensão, fortalecendo a cadeia produtiva do setor cultural. Em 2026, a programação teve mais de 1,2 mil atrações, incluindo nomes como Seu Jorge, Ajuliacosta, Mocidade Alegre, Marina Sena e Péricles.
Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizada a pedido da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, a Virada Cultural reuniu 4,8 milhões de pessoas e movimentou cerca de R$ 1,1 bilhão na economia paulistana nos dias 23 e 24 de maio de 2026.
O levantamento também apontou que a descentralização das atrações pela capital contribuiu para uma avaliação positiva do público. Ao levar apresentações para diferentes regiões da cidade, a iniciativa alcançou 94,6% de aprovação entre os participantes. Apesar disso, alguns frequentadores acreditam que ainda há espaço para ampliar o alcance do evento.
“Foi uma boa escolha, mas acho que poderia abranger mais bairros e mais lugares de forma acessível”, afirma Alana Oliveira, que compareceu a dois shows durante a programação.

Em meio às dificuldades de acesso à cultura e ao lazer, marcadas pela desigualdade social, pelas longas jornadas de trabalho e pelos deslocamentos diários, eventos gratuitos se destacam como importantes espaços de pertencimento, socialização e expressão artística. Mais do que entretenimento, funcionam como pontos de encontro entre diferentes realidades, ampliando o acesso à arte e aproximando a população de manifestações culturais que muitas vezes não fazem parte do cotidiano de moradores das periferias.
Para Diego Miranda, a Virada Cultural proporciona oportunidades de cultura, lazer, aprendizado e construção de memórias. “A gente consegue chamar um grupo de amigos, ir para o centro e ter acesso à cultura, não só por meio dos shows, mas também de filmes, peças de teatro e outras apresentações que acontecem pela cidade. Isso enriquece muito a gente que vem de longe e não tem tanto acesso a esse tipo de atividade.”
Além de democratizar o acesso à cultura, iniciativas promovidas pela Prefeitura de São Paulo podem estimular o senso de pertencimento, o pensamento crítico e a satisfação do público ao oferecer atividades abertas e gratuitas.

A estudante de Jornalismo Giovanna Suprino destaca que a gratuidade das atrações é um dos principais fatores de inclusão. “As pessoas que vivem na periferia e talvez não tenham condições de comprar ingressos para shows têm a oportunidade de assistir aos artistas de que gostam. É uma forma de viabilizar o acesso das pessoas pobres à cultura.”
Apesar dos avanços, ainda existem barreiras que limitam o acesso pleno ao evento. Mesmo com a descentralização dos palcos e a gratuidade da programação, fatores como transporte, alimentação, segurança e rotina exaustiva dificultam a participação de parte da população.
Outro aspecto apontado pelos entrevistados é a duração do festival. Realizada em apenas dois dias e uma vez por ano, a Virada Cultural é vista como insuficiente para garantir um acesso contínuo à cultura e ao lazer. Para eles, a ampliação da programação, seja por meio de mais dias de evento ou de novas edições ao longo do ano, poderia fortalecer o consumo de produções culturais nacionais e gerar impactos mais duradouros nas comunidades periféricas.
Para Alana Oliveira, a Virada desempenha um papel importante na democratização da cultura, mas ainda possui limitações. “É importante. A gente vê isso principalmente no centro e também nos bairros mais afastados, o quanto faz diferença para as pessoas. Mas, com certeza, ter mais eventos assim durante o ano seria interessante.”
Giovanna Suprino compartilha uma visão semelhante. Segundo ela, apesar da relevância do festival, poucos dias de programação não são suficientes para garantir acesso contínuo à cultura. “A Virada, por si só, uma vez por ano, não garante acesso pleno. Mas ela funciona como um holofote para que as pessoas voltem seus olhares para a cultura nacional.”
Embora represente um importante esforço de democratização cultural por meio da gratuidade e da descentralização, a Virada Cultural evidencia que o acesso à cultura depende de fatores que vão além da oferta de atrações. Tempo disponível, mobilidade urbana e condições socioeconômicas continuam sendo elementos determinantes para que diferentes públicos possam ocupar e usufruir desses espaços culturais.
