Por Sofia Ricardo
Passageiros de ônibus municipais do Rio afirmam que medida impacta pessoas em
situação de vulnerabilidade e defendem a opção de pagamento em dinheiro

Pegar o transporte público, como ônibus, faz parte da rotina diária de boa parte da população
do Rio de Janeiro. E, após o dia 28 de junho, esses passageiros serão impactados por uma
nova medida, que determina que o pagamento em dinheiro nos ônibus municipais não será
mais aceito.
Com a nova medida, apenas cartões como o Jaé e o Bilhete Único poderão ser utilizados. Apesar da prorrogação do prazo, com a data limite sendo o dia 28 de junho para o uso de dinheiro nos ônibus, o pagamento via Pix já está disponível, e a implementação da opção de pagamento com cartões de débito e crédito está sendo feita ao longo do mês de junho. Porém, a situação trouxe à tona uma discussão sobre os efeitos prejudiciais que isso traria para parte da população que vive em situação de vulnerabilidade.
Idosos, moradores de áreas periféricas e demais grupos socialmente vulneráveis são os mais afetados pela nova medida. Levando em conta que mais de 20,5 milhões de brasileiros não acessam a internet por diferentes motivos, inclusive por não saberem utilizá-la, de acordo com dados de um suplemento sobre tecnologia da informação e comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), uma parcela da sociedade moradora do estado do Rio de Janeiro se encaixa nesse quadro de dificuldade de acesso digital.
Algumas das principais preocupações que aparecem entre a população incluem as pessoas que ainda não possuem Bilhete Único ou Jaé, idosos ou pessoas com dificuldade de acesso à internet e ao uso de tecnologias digitais, e se eles vão conseguir lidar e se adaptar à situação. Além disso, há os casos de emergência em que o passageiro não está com o RioCard.
Luiz Fernando, morador de Duque de Caxias, comentou: “Essa nova modalidade que a Prefeitura do Rio lançou de tirar o dinheiro vai impactar muito. Porque, por exemplo, tem gente que não tem acesso à internet na rua, tem gente que tem um celular de um modelo mais antigo e, com isso, não tem acesso aos bancos.” Luiz também ressaltou que o pagamento em dinheiro era uma alternativa para quando os aplicativos apresentam problemas e uma opção para emergências: “Constantemente acontece de o RioCard falhar ou, às vezes, eu esquecer de validar, e o dinheiro seria muito, muito, muito útil.” Ele acrescentou: “Já aconteceu de eu sair de casa com o RioCard e sempre levar um dinheirinho da passagem, caso justamente aconteça esse tipo de problema.” Ele ressaltou ainda o efeito que os problemas de acesso aos aplicativos podem causar na agilidade do processo: “E fora que isso vai atrasar muitas viagens, porque a pessoa entra no aplicativo e demora, ou esqueceu a senha, ou o aplicativo entra em manutenção. Então, isso vai aumentar muito o tempo da viagem do passageiro.”
Segundo o município, a ação defende a melhoria nos serviços e na segurança, buscando, então, “ampliar o controle e a transparência da arrecadação tarifária, reduzir o tempo de embarque, eliminar o manuseio de dinheiro pelos motoristas e aumentar a segurança nos veículos”. Porém, algumas pessoas não concordam que a eliminação do pagamento em dinheiro vai ajudar na segurança. “Ficar numa rua, seja em qualquer horário, com o celular e o aplicativo do banco abertos para tentar agilizar o processo, faz com que a pessoa corra risco de ser furtada ou assaltada”, afirmou Luiz Fernando.
O presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), o deputado Douglas Ruas, apresentou uma contraproposta à medida das novas formas de pagamento aceitas em ônibus. A proposta determina que empresas públicas e privadas devem aceitar pagamento em dinheiro em todo o estado. “O avanço tecnológico é importante, mas não pode criar barreiras para trabalhadores informais, pessoas em situação de vulnerabilidade e outros grupos. O dinheiro em espécie é a moeda oficial do país e precisa continuar sendo aceito”, afirmou Douglas Ruas. Porém, a proposta ainda precisa passar por votação no plenário.
Miriam Neves, de 67 anos, utiliza o passe sênior e possui o Jaé, mas também acredita que o dinheiro deve ser uma opção de pagamento e que as pessoas devem poder escolher a melhor forma de pagar: “Eu acho isso errado. Se a pessoa tem o dinheiro e quer pagar a passagem, ela pode pagar, sim, a passagem com o dinheiro. Eu não acho legal eles cortarem o dinheiro”. E disse “Para mim, eles deveriam continuar, sim, recebendo dinheiro. E aqueles que usam o passe continuam usando”, defendeu Miriam.
Os principais problemas relatados envolvem questões de acesso à internet, dificuldade com aplicativos, segurança e emergências, afetando principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade e que são impactadas pela exclusão digital. Essa transição nas opções de pagamento apresenta divergências de opinião e causa insegurança e descontentamento na
população do Rio de Janeiro.
Para quem tem dúvidas sobre como adquirir os bilhetes, o cartão Jaé pode ser obtido nas máquinas de autoatendimento das estações de BRT ou VLT, mediante uma caução de R$ 5,00. Já o cartão RioCard custa R$ 5,00 e pode ser adquirido nas lojas RioCard Mais ou em uma máquina de recarga. Caso a aquisição seja feita pelo site ou em uma das lojas RioCard Mais, com a habilitação do cartão para o Bilhete Único Intermunicipal e a realização do cadastro no ato da solicitação, não será necessário pagar os R$ 5,00.