
Iniciativa Perifa na Lista conecta jovens do interior da Bahia a festivais, shows e experiências que sempre foram negadas
No sul da Bahia, a potência de um sonho coletivo nasce onde o acesso é negado. Rick Trindade, baiano de Itabuna, comunicador, produtor audiovisual e ativista social, transforma essa negação em portas abertas para centenas de jovens.

“Eu sou Rick Trindade, sou baiano, de Itabuna, nascido e criado aqui.” É assim, simples e firme, que Rick se apresenta ao Jornal Empoderado, O idealizador do Perifa na Lista, projeto que conecta jovens pretos e periféricos a experiências de arte e lazer, carrega na fala o mesmo compromisso que move sua vida: devolver para a juventude preta o direito de viver a cultura que sempre lhes foi negada.
Aos poucos, sua trajetória de estudante de Comunicação Social na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) se tornou também uma história de autodescoberta. Rick lembra que, na universidade, percebeu que “as pessoas que eram chamadas para participar em frente às câmeras de audiovisual não eram pessoas parecidas comigo. Era um processo de entender: poxa, eu estou dentro desse universo, mas não necessariamente eu tenho poder também sobre isso, porque acabo sofrendo consequências.” Foi ali que a consciência racial se entrelaçou ao desejo de mudar realidades.
A ideia, como ele mesmo conta, nasceu da própria vivência: “O Perifa nasceu muito da minha vontade, enquanto Rick mesmo, de acessar eventos culturais e artísticos.” Quando adolescente, Rick via o Carnaval de Salvador apenas pela TV. Salvador, mesmo perto de Itabuna, parecia inalcançável: “Era muito distante na questão de dinheiro, porque eu não tinha grana para ir, também não tinha parentes que facilitassem isso. Fui conhecer Salvador de adulto, com 26 anos.”
A experiência de quem cresceu em uma família interracial, vivendo na ponte entre mundos, o marcou desde cedo: “Eu sempre tive essa percepção da questão da raça muito clara. Eu lembro muito bem, já criança, de falar: ‘Ah, isso é racismo’.”

O Perifa na Lista fez florescer o compromisso antirracista que Rick carrega. Hoje, jovens que talvez nem sonhassem em sair do bairro foram para shows de João Pimenta, festivais como o Afropunk e até para a pré-estreia do “Renaissance: A Film by Beyoncé”.
“A gente levou 30 jovens daqui do Sul da Bahia para o Afropunk. Não teve custo nenhum para eles: passagens, hospedagem, alimentação, tudo foi arcado pelo projeto.” E para quem acha que ir a um festival é algo corriqueiro, Rick faz questão de lembrar: “A gente não quer só ter o que comer, só ter o que beber. A gente quer viver, quer ter essas oportunidades.” E foi exatamente para garantir essa possibilidade que ele criou o Perifa na Lista.
No coração dessa experiência, Rick reforça o simbolismo de um acolhimento coletivo que ele chama de quilombo: “A gente faz muita questão de criar, de forma simbólica, um quilombo mesmo. Porque, para a gente, não é interessante só levar essas pessoas, mas fazer com que essas pessoas se sintam confortáveis nesses eventos que, majoritariamente, são de pessoas brancas.” Para ele, é mais do que uma viagem: é uma recriação de pertencimento, de proteção e de comunidade.
Mas Rick não romantiza os desafios. Ele lembra que garantir o ingresso não basta: “Não dá para dizer que só o ingresso é suficiente, porque não é. Festival não é evento barato. Às vezes, na madrugada, um Uber dá 70, 80 reais. A comida mais barata é 40 reais. A gente está falando de jovens que muitas vezes não têm nem 20 reais no bolso.”
Diante disso, o Perifa faz questão de oferecer algo que vai além do ingresso: acolhimento. Assim, surgem estratégias: grupos no WhatsApp, pontos de encontro, caronas combinadas. Tudo pensado para que ninguém se sinta sozinho ou deslocado em espaços historicamente elitizados e embranquecidos.

Mesmo em festivais criados para celebrar a cultura preta, Rick aponta contradições: “É meio contraditório. É um festival bonito para pessoas pretas, mas você chega lá e tem muita gente do Sudeste que consegue acessar aquele espaço. A galera que está ali perto, nos arredores, não tem nem consciência de que aquilo existe.”
A força de fazer acontecer vem de parcerias improváveis — como Tatá Werneck, que já ajudou a financiar hospedagem e alimentação. “Me espanta eu conseguir falar com a Tatá, uma pessoa branca do Rio, mas não conseguir dialogar com artistas pretos de Salvador.” Essa é uma das várias camadas de invisibilização que Rick enfrenta todos os dias.
Falar de fomento público também é apontar o dedo para a estrutura. “Você não consegue realizar um festival com [um edital de] 30 mil reais. Não consegue pagar profissionais, bandas, toda uma estrutura. Até para trabalho voluntário a gente precisa de dinheiro.” Enquanto isso, editais complicados, redes de contato fechadas e o peso da distância física do Sudeste criam obstáculos diários. “Eu entendo que, talvez, se eu fosse de São Paulo, eu já estaria em outro lugar.”
Para seguir vivo, o projeto se reinventa. Vem aí o Perifa em Cena, braço voltado para oficinas, palestras e cobertura de eventos. “A gente quer se vender enquanto profissionais da comunicação, do audiovisual, para continuar fazendo o que faz. Porque, no mundo capitalista, até para trabalho voluntário a gente precisa de dinheiro.”
O que move Rick é maior que qualquer edital: “Para algumas pessoas, ir para um show é corriqueiro. Para outras, não é. Às vezes, o ingresso é o que a pessoa ganha no mês.” Por isso, cada jovem que volta para casa depois de um festival volta também com algo que dinheiro nenhum compra: a certeza de que também pertence àquele lugar.
No sul da Bahia, onde o mapa costuma marcar carências, Rick Trindade ergue, tijolo por tijolo, um território de sonhos. Um quilombo cultural onde ser preto, ser jovem, ser do interior não é sinônimo de estar de fora, mas de ocupar tudo — com música, arte e voz.
