Para muitos, ele poderia ser só mais um Zé, forma pejorativa que a nossa sociedade se refere à alguém visto como sem importância ou valor. Mas, UMZÉ, assume a missão de subverter, num país onde há 5.164.752 de pessoas chamadas José, sendo o nome masculino mais popular no Brasil, segundo os dados do Censo Demográfico do IBGE, o artista mostra que assim como os outros, ele não é qualquer um. O nome artístico também é uma homenagem à seu avô e ao bisavô.

Num bate papo descontraído, UMZÉ falou com o Perifa sobre carreira, processo criativo, a realidade de ser um artista independente no Brasil, sobre a importância da democratização do acesso à cultura e arte e também sobre seu novo lançamento, o EP “NÃO VOU DANÇAR NA SUA PISTA (LADO A)”
Primeiro, eu gostaria de saber: por que UMZÉ? De onde surgiu esse nome artístico, qual foi a inspiração?
UMZÉ: É uma história engraçada, muito tempo atrás, em 2022, ainda antes de lançar o “Caçula”(primeiro EP do artista lançado em 2023), eu tava numa reunião, porque eu tinha dado uma ideia pra nome artístico. Na minha família, a gente não tem uma herança de ter um sobrenome relevante na música. Meu pai tocava em pagode, minha mãe cantava na igreja e era só isso de herança que eu tenho. Então isso de um nome artístico e tal nunca foi uma coisa muito forte pra mim. Mas aí eu vi que era importante, e aí eu tava numa reunião e eu lembrei de uma seguinte história. Meu avô, ele se chama José Luiz e meu bisavô também tem José no nome, também tem o Luiz ali no meio. Então é uma sequência de Luizes e Josés dentro da família por parte de mãe. Minha mãe me deu o nome só de Luiz, não tem José, nem Jorge, as variações lá da família. E o meu avô, que é de Alagoas, como revolta, ele me chama de José Henrique, ele pula até o Luiz. “Ô, Zé Henrique, vem aqui”. Vira e mexe, lá em casa alguém me chama de Zé, Zé ruela, Zé Vacilão, alguma coisa assim. Então aí, Zé, por que não Zé? E aí veio UMZÉ como uma variação disso, né? Até casando com a narrativa que eu queria trazer em “Caçula”, era muito de valorizar aquilo que era comum, aquilo que passava batido ao olho humano. Então, sou só mais um Zé, um Zé ruela, um Zé qualquer. E aí vem nessa, tipo assim, como pode um Zé, um Zé ruela, um Zé qualquer, chamar tanta atenção, receber tanto carinho do público, fazer uma arte tão relevante? Então, acho que vem nesse caminho, assim, de brincar com as contradições.
Agora eu quero saber da sua trajetória até chegar aqui. Quando você se percebeu artista e como começou sua caminhada na arte?
UMZÉ: Isso de se perceber artista é muito difícil quando você é preto e periférico, a gente está muito mais obstinado na sobrevivência, né? Em sair do buraco do qual nós fomos postos por condições maiores que nós. Eu vi uma frase esses dias no Instagram de uma moça comentando que se você não tem sobrenome, se você não tem contatos, você tem essa necessidade de ser visto, né? Eu me vi artista quando eu me mudei pro interior de São Paulo. Eu estava com 15, 16 anos. Eu fui fazer um curso técnico no outro extremo de São Paulo, lá em Presidente Prudente. E lá eu comecei a me conectar com a cena do sarau, da poesia recitada. Então o pessoal do Quilombo de Dandara foi um grande impulsionador para mim. E amigos da música que eu fui conhecendo lá. E é ali que eu comecei a colocar mais fé no que eu já estava fazendo, que era escrever poema. Então eu escrevia poema, era um menino tão que sofre que sonha. Mas nada muito conectado a um viés artístico, a esse afã da artisticidade. Mas foi ali apresentando um poema ou outro, mostrando para um amigo, e começando a flertar com essa questão da música. Eu lembro que nessa mesma época minha avó tinha me dado um violão de presente. E aí eu comecei a brincar, fiz um cursinho. Então acho que todo esse contexto começou a me fazer pensar um pouco mais música, pensar um pouco mais de artisticidade, mas só veio maturar mesmo quando eu entrei na faculdade em 2019. Que foi ali que eu comecei, na crise de estar sozinho num lugar diferente, eu estava fazendo faculdade na Unicamp, em Campinas, morando sozinho. E ali foi que eu comecei a ter os primeiros pensamentos comigo, a elaborar com concretude meus primeiros pensamentos enquanto artista, a fazer meus EPs que ficaram engavetados lá no Soundcloud. E eu falei, por que não tocar isso pra frente? Foi nesse contexto que surgiu Crescer Dói (single lançado em 2023).

“…porque na minha família os sonhos, os sonhos artísticos, eles foram matados muito cedo pela necessidade do feijão, sabe? Então era celebrado quando se tinha alguma expressão artística, mas ninguém sabia pra onde, o que fazer com isso, entende? Além do próprio entretenimento, do auto entretenimento…”
UMZÉ
O artista completa afirmando que a construção de se ver artisticamente, veio de um cruzamento de várias pessoas, eventos e situações de exposição, que o fizeram pensar, que o que ele faz tem potencial: “Então acho que, nisso que eu falei sobre a questão de ser negro e ser de periferia, e como essas questões nos atravessam, é o quanto nos falta acesso a uma educação formal de artista. Tipo, roda de leitura, roda de composição e tudo mais. Sempre quando eu precisava ter algum contato com cultura na minha cidade, eu precisava ir pro centro. E ir pro centro era muito caro, era passagem de ônibus, tinha que ter alimentação. Então, por conta de me mover pra fazer um curso técnico, pra fazer faculdade, eu tive acesso a esses polos de cultura mais latentes.”
Em Abril você lançou seu EP “NÃO VOU DANÇAR NA SUA PISTA (LADO A)”, o projeto é resultado de três anos de pesquisa sobre a cultura dos Bailes Charme a partir de uma perspectiva preta e queer, como você mesmo afirma. Você é pesquisador musical também, me diz como é esse trabalho? e como foi o processo de pesquisa do EP?
UMZÉ: Eu nunca quis fazer engenharia. Sou formado em engenharia de alimentos, mas eu fiz exatamente pela necessidade. Ao passo que ter entrado numa universidade pública, me deu acesso a uma metodologia de pesquisa que quando eu pulo pra elaborar um disco, pensar um disco, eu penso com a cabeça de um pesquisador também. Então eu sinto que quando eu comecei há três anos, a pensar como eu ia estruturar um pensamento mais concreto pra um disco, pra um próximo trabalho, ele veio com esse viés acadêmico, justificativa, bibliografia, todas essas questões. E isso invariavelmente dá um caldo muito grosso pra se ofertar ao público numa questão de proposta de disco. Tanto que “Não Vou Dançar Na Sua Pista” é fruto de pesquisa, mas ao longo desses três anos várias outras coisas surgiram no caminho que não vieram aos nossos ouvidos ainda mais que um dia virão. Então eu sinto que está sendo apresentada essa obra finalizada fruto dessa pesquisa, porque eu comecei a pensar sobre as coisas que meu pai falava. Meu pai ia nos bailes blacks aqui em São Paulo, né? E aí ele contava muito sobre essas histórias pra mim de quando ele ia, de quando tinha batida policial, quais músicas ele ouvia. A gente trocava muitos gostos musicais. A partir de um certo momento da minha adolescência eu comecei a me interessar mais pelo que meu pai tinha pra trazer. Aí a gente começou a trocar referências, eu comecei a gostar mais… Primeiras paixões também, né? As músicas dos bailes blacks sempre são muito românticas. Tem o groove, mas tem o romântico ali do R&B. E ali eu comecei a entender que recorte de tempo que meu pai estava vivendo e trazer um pouco da história pra isso. Então, tipo, pô, ele é nordestino, veio pra São Paulo, nos anos 80 ele já tava vivendo os bailes blacks aqui de São Paulo, finalzinho da ditadura. E eu comecei a fazer umas contas e ao mesmo tempo que eu fazia essas contas, eu também me colocava dentro dessas histórias, “meu corpo estaria ali dentro?” Eu, enquanto homem preto, só que LGBT? E aí, nesses encontros e desencontros da história do meu pai com a minha história que eu comecei a entender quais eram esses bailes modernos, né? Como seria um baile black hoje em dia? Será que acolheria o meu corpo? E aí, eu não vou dançar na sua pista, ele veio dessa pesquisa de bailes blacks. Então, assisti vários documentários do Emílio Domingos, fui em várias rodas de conversa também, conversei com pesquisadores do Baile Charme. Então tudo isso pra ficar bem fundamentado do que aconteceu no Brasil nessa época e entender o que a gente pode contornar e desenhar pros dias de hoje. Então, hoje em dia, a gente tem outros bailes, o próprio Vogue, os ballrooms e tudo mais, acolhem essas dissidências de raça e sexualidade. Mas pra além disso também, o que a gente consegue fazer, né? E aí, eu não vou dançar na sua pista. Então, ele tem todo esse ponto de fundo histórico, mas ao mesmo tempo, eu costuro dentro dele alguns elementos muito pessoais: um término, minha saída da igreja e muitas outras coisas.

Você fala que o trabalho transforma experiências de trauma religioso, violência afetiva e silenciamento em um manifesto de dança e resistência. Como foi esse processo? Como é essa experiência de transformar dor em arte? Todas as músicas são composições suas?
UMZÉ: Enquanto compositor, uma das coisas que eu mais prezo é usar a experiência como substrato pras composições: a vida, a minha passagem pelos meus eventos, tanto de luz quanto de sombra, transformo tudo em relato, em arte, já tenho esse hábito, eu tenho um caderno, por exemplo, que eu vou lá anoto as minhas coisas, e tudo mais. E aí, quando eu tava em 2024, compondo com O Cientista Perdido, para o álbum “Casa, aqui”, ele tinha uma temática de infância LGBT, o que a gente passa, quais as memórias que a gente tem, etc, etc, etc. Nessa época, eu tinha acabado de terminar um relacionamento amoroso, lá pro meio de 2024. Então, minha cabeça tava assim, “quanta dor, não sei o que fazer” e foi nesse processo, compondo pro “Casa, aqui”, que eu me encontrei também compondo pra uma coisa que eu não sabia o que seria, mas que era o “Não Vou Dançar Na Sua Pista”. Então, eu tinha recebido, ali no final do ano, uma base do Felino (produtor musical e DJ), ele me mandou falando que era a minha cara e depois de ouvir eu só pude concordar. E aí eu comecei a escrever, a gente começou a conversar sobre uma experiência que ele tinha passado também, que era bem parecida com a minha. E aí, compondo, eu comecei a entender que existia uma sequência lógica das faixas da forma com que elas estavam vindo. Então, Não Vou Dançar Na Sua Pista, Não Me Vou Vender Pro Seu Jogo, tem toda uma estrutura lógica de uma pessoa que passa pelo luto de um término, e eu estava passando por um relacionamento muito tóxico, que tava me fazendo muito mal. Depois que eu terminei, eu comecei a elaborar sobre isso através da composição. Ao passo que eu também havia saído da igreja por ser exatamente quem eu sou. A igreja sempre foi esse suporte pra mim, esse lugar de suporte, mas nunca de realização plena, sabe? Então, é muito de você ser espectador da vida de uma outra pessoa, né?. Somente uma faixa não é composição minha.
“Quando eu falo onde a igreja me bateu, onde dói, é nesse campo do romântico, do pessoal, a vida de uma pessoa hétero, todas as facetas dela, são santas e entram dentro de um contexto, mas pra mim, não, por isso que eu falo que é essa dinâmica do espectador, porque a vida do outro é boa, a vida do outro pode fazer isso, por causa disso daqui (sexualidade) e fazendo essas contas, já na faculdade, eu entendi que estar ali já não fazia sentido, que eu estava me machucando, então foi muito consciente esse rompimento”
UMZÉ

O EP conta com quatro faixas, com colaborações de Lio (Tuyo), do Coral de Homens Gays de São Paulo, estreando inclusive, e de Cayuma. A escolha foi acontecendo de uma maneira muito orgânica, minha troca com Lio já é desde 2022/2023, e aí chamei ela pra dirigir voz nesse trabalho, no estúdio eu achei muito legal o arranjo que ela fez e aí rolou de gravar voz também, de forma muito natural. O coral de homens gays de São Paulo, eu descobri pela rede social, e eu sabia que a primeira música precisava de um coral, mas eu não tenho tantos amigos assim pra “formar” um, e quando eu ouvi eles, eu disse “é isso”, fiz o convite e eles toparam. E por fim, a escolha do Cayuma foi pra fechar esse lado A com chave de ouro, homenageando ele, porque ele acompanhou todo o processo desse disco. Cayuma era um amigo em comum, que infelizmente, faleceu em 2025, deixando um legado na música e muita história ainda a ser contada.
Bebendo de muita música antiga, UMZÉ afirma que ouve em doses cavalares, artistas como Earth, Wind & Fire, Bar Keys, The Emotions, Delegation, Luther Vandross, Al Green, Zapp, Shade, Isley Brothers, KC & The Sunshine, entre outros. “Eu fico pensando, isso é muito legal, isso não é datado, mas como seria nos dias de hoje, né? Então, eu trouxe esse groove… eu falei das gringas, mas tem as brasileiras, a gente tem Liniker, a gente tem Luedji Luna, a gente tem os Garotin, a gente tem a Chave da Cidade, a gente tem Aika, que é uma amiga minha de Campinas. Então, eu sinto que a gente bebeu tanto do antigo, tanto das referências máximas e tudo mais, quanto das referências mais contemporâneas, sabe?”
Qual o feat dos sonhos?
UMZÉ: Que pergunta boa… é uma coisa super realizável, que é um feat com a Tuyo, tá na mão, mas pra mim é um feat dos sonhos, eu tenho eles como meus mentores, sempre admirei o trabalho e hoje estou começando a trabalhar com eles, então eu acho muito bonito quando o seu sonho tá no quintal de casa, eu tenho pretensões de feat com Liniker, Luedji Luna, mas é meu sonho também fazer feat com quem tá dentro de casa, que é o caso da Tuyo”
Como é ser um artista independente no cenário musical da atualidade? E pra você, enquanto pessoa e artista, qual a importância e impacto da democratização do acesso à cultura?
UMZÉ: Você pegou na véia, tá!? Ser um artista independente no Brasil produzindo arte é muito maravilhoso e frustrante ao mesmo tempo, maravilhoso porque você tem os graus de liberdade que você quer e frustrante porque não tem nenhum norte para você. Não tem nenhum incentivo muito claro para você. Até as próprias leis de incentivo falham muito em democratizar acesso para pessoas independentes como eu ou várias outras pessoas… Quando eu comecei a ser artista, lá em 2023, lançando “Caçula“ e tudo mais, eu não sabia o que era um fonograma, eu não sabia o que era uma obra, eu não sabia nada disso. Se você não tem uma família vinculado a isso, um sobrenome relevante, uma pessoa que vai te ajudar, você vai penar muito, apanhar muito na cara antes de chegar no mínimo. Tem a largada, um exemplo, a cena independe de São Paulo, se você não tem alguém pra te ajudar, você vai estar antes da largada, você não começou nem a competir. Sendo um artista independente, é com esse lançamento que agora eu estou começando a me sentir de igual pra igual com outros/outras artistas independentes daqui de São Paulo. Mas, há muito feijão a se comer, há muito networking a se fazer, e isso é muito complicado, porque na maioria das vezes, vai depender do seu sobrenome, vai depender da cor da sua pele, do seu círculo social, vai depender se a pessoa vai com sua cara… Então, o grande segredo é juntar forças, por isso criamos esse selo, a Baita, que é quase uma cooperativa, porque a gente pega a mão um do outro e vai junto. Eu mando edital desde o “Caçula”, e estou mandando até hoje, não é fácil, é tentativa sobre tentativa…

📷 Fotografia: Laís Dantas Santana laisdant4s
📷 Assistência: Giovana Fogagnoli Lima nanafogag
🎭 Artístico: Maria Luiza da Mata maludamataa
🎨 Design: Jamerson César jamersoncesar__
👔 Stylist: Guilherme Batista D’Aragão gdaragao e Victor Hugo Floriano guinho90s
💇🏾 Cabelo: Walisson Pereira dos Santos itxwally
💄 Beleza: Laura Beatriz de Araujo laurabeatriz.mua
🚪Host: Gardê Brechó gardebrecho_

A continuidade do disco sai ainda esse ano, no segundo semestre, final de junho ou início de julho. “Não espere o mesmo que o Lado A. Teremos parcerias, teremos uma música com Tuyo, realizando meu sonho de feat. O Lado B é pura tristeza (risos) em forma de R&B, ele é muito mais sentimental, tem essa coisa do luto né, a raiva e a negação foram tudo no primeiro lado… a última faixa do disco é de chorar, eu cantei no show de spoiler que teve aqui, todo mundo se emocionou, o nome da faixa é “Talvez”.“
UMZÉ planeja evento para audição do disco, em São Paulo, que contará também com uma live, com data ainda a ser confirmada. Todo o valor levantado no evento será doado para uma casa de acolhimento à pessoas LGBTQIAPN+.
Você pode acompanhar o artista em suas redes sociais e ouvir suas músicas nas plataformas de streaming.
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